(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)
A hospitalidade local em mais um relato do Egon na Mongólia. A primeira foto é da maravilhosa Lucie Debelkova. As outras são de outros fotógrafos do Flickr.

EGON E OS GERS
Sain bainu (ola, como vai - em mongol),
Por ser essencialmente nomade, estima-se que mais da metade da populacao da Mongolia viva em Gers, aas vezes conhecidos como yurts (palavra de origem russa). Consiste essencialmente em uma tenda de formato circular e teto baixo, arquitetura excelente para resistir aos fortes ventos invernais das estepes. Sao feitos de feltro, com armacao em trelicas de madeira e cobertos com uma lona branca, com a chamine saindo pelo centro (aqui faz -40 C no inverno!). No verao, a parte de baixo eh dobrada para cima, permitindo assim uma boa ventilacao.
Pois eu estava caminhando por entre montanhas e vales gramados de manha cedinho, quando avistei um rebanho de cabras e uns cavalos junto a um Ger, possivelmente de uma familia de nomades. Mas, chegando a uns 300m, os 2 cachorros acoaram e correram em minha direcao - com cara de poucos amigos. Todos Gers tem seus cao-de-guarda, cachorros pretos grandes, maiores que o pastor-alemao, e com cara de brabos. Eu? Bem, apos cristalizar por alguns segundos com o frio da espinha, gritei:
- Nokhoi khorio! (segura os buldogues, em mongol - frase essencial para a sua integridade fisica no interior da Mongolia).
E veio o dono gritando algo para os cachorros (eu acho), e eles pararam, para meu alivio - ufa!
A hospitalidade eh ponto caracteristico da cultura nomade e, entrando na seguranca do Ger, o dono jah encheu a tigela e me deu, para tomar como drinque de boas-vindas, o airag - leite de egua fermentado (tem uns 3% de alcool). E tomei tu-di-nho…

Por dentro, o Ger me pareceu realmente confortavel. A porta de madeira, sempre colocada para o lado sul (considerado auspicioso), era toda pintada de laranja, com desenhos geometricos coloridos. No lado oposto estah um pequeno altar budista, inclusive com a imagem de Dalai-Lama. A parte da esquerda eh da mulher, com objetos da cozinha e carne seca pendurada (para o inverno), sendo que o fogao ocupa a parte central do Ger - o fogo eh considerado sagrado. Tudo muito simples, minimalista como devem ser os bens materiais de nomades.

Papo vai e papo vem, em mimiquez, entendi que vivem ali criando cabras - cavalos sao para o leite e o transporte. A filha pequena soh me entreolhava, desconfiada, das cobertas…
E assim tomei meu cafe-da-manha: queijo de leite de cabra (amargo e duro como pedra), mais airag (jah estou ateh gostando, hehehe…) e buuz (parece com enormes capeletes, recheados com carne ?, mergulhados em chah de leite de cabra salgado). Hmmmmm…
Retruibui a hospitalidade com as barras de chocolate (era o que eu tinha na mochila) e, entre muitos sorrisos, me despedi da familia (nokhoi khorio!).
Bayartai,
Egon www.egonf.com
PS.: Em alguns dias eu tive a oportunidade de dormir em Gers: dormi bem e profundamente. Dizem que devido aa sua forma redonda, nao tem cantos, o mesmo nao acumula energias negativas. Desta maneira, dormir em um Ger rapidamente remove a agitacao das pessoas…
PS2.: A paisagem aqui na Mongolia eh, principalmente, de campos e coxilhas. Em uma visao romantica, dizem que os Gers sao como perolas brancas colocadas sobre um tecido de seda verde…

- Gabriel Prehn Britto