Marrocos

› 26 de fevereiro de 2010

Mala suerte

No início bate um medão. Você está em um país estranho. Aquela esteira, que há pouco tempo estava repleta de malas, começa a ficar vazia e, de repente, para sem trazer sua bagagem. Você olha ao redor para ver se está na esteira certa, confirma que está, olha para os lados e não vê nem sinal da sua fiel companheira cheia de roupas.

Sim, a companhia aérea perdeu sua mala.

Jack, Kate, Sawyer, Ben, Locke, Rodrigo Santoro e a sua mala

Na verdade, ela provavelmente não perdeu, apenas colocou em um voo errado ou simplesmente esqueceu de colocar no seu voo naquela conexão anterior. Mesmo assim, na melhor das hipóteses, você vai levar um dia para recebê-la de volta. Levando em consideração que você já está há umas 24 horas com a mesma roupa, a mesma cueca/calcinha e as mesmas meias, isso é péssimo.

Respire fundo e relaxe, porque você não está sozinho. Segundo a Comissão Europeia dos Transportes, 90 mil malas são extraviadas por dia. Ou seja: se você fizer uma viagem de dois dias (tipo Porto Alegre - Bangcoc) você tem 180 mil chances de perder a bagagem.

(Tá, matematicamente não é bem isso, mas eu preciso criar um clima de medo para o que vem a seguir.)

Destas 90 mil, 30 nunca mais voltam para seus donos.

Graças a Alá, nunca passei por esta situação radical de nunca mais ver minha malinha, mas já passei pelo susto descrito ali no primeiro parágrafo. Foi no Marrocos. Desembarquei em Casablanca e fui para Marrakesh no mesmo dia. Passei um dia inteiro me sentindo podre, mas tudo terminou bem, apesar da podríssima Iberia ter me feito pagar um táxi até o aeroporto da cidade para pegar minhas coisas, ao invés de levá-las até o meu hotel.

Foi bom. Aprendi várias lições com aquela experiência e vivenciei outras que já tinha escutado:

- A regra básica de levar uma muda de roupa na bagagem de mão;

- Viajar de óculos, nunca com as lentes de contato;

- Colocar identificação fora e dentro das malas (a de dentro em cima de todas as roupas);

- Dividir o conteúdo das malas com alguém que for viajar com você (se perderem uma, ambos ainda terão roupas);

- Saber descrever as características das malas (isso é solicitado no guichê de bagagem extraviada do aeroporto);

- Ter à mão endereços de todos os hotéis da viagem, para o caso das malas demorarem mais tempo para chegar;

- Na volta, colocar os cartões de memória da máquina fotográfica sempre na bagagem de mão.

- Anotar todos os gastos causados pelo extravio, guardando notas fiscais, para que possam ser ressarcidos pela companhia aérea.

- Manter a calma, porque não há nada que possa ser feito e qualquer chilique só vai estragar a sua viagem. Deixe para execrar a companhia aérea depois.

My sweet love (Foto: wooferSTL - Flickr)

- Gabriel Prehn Britto
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› 27 de outubro de 2009

País Rico, País Pobre

Semana passada, um colega de trabalho voltou das férias. Passou 20 dias entre Europa e Marrocos. Disse que adorou o país africano, mas que a chegada em Marrakesh foi meio traumática. Quando ele falou isso, minha pergunta foi: você passou um tempo na Europa antes de ir para lá?

Sim. Ele fez o contrário do que eu fiz em 2006, então resolvi escrever um post sobre uma regrinha do meu Livro Pessoal de Sabedoria Viajante Pessoal:

“Art. 5º: Sempre que a viagem incluir um país rico e um país pobre, o país rico deve ficar no final do roteiro.”

Explico.

Passar um tempo em um lugar organizado, limpo, onde um pé na faixa de segurança significa carros parando nos deixa muito mal acostumados. Rapidamente começamos a amar toda aquela civilidade e desejamos ficar ali o resto da vida. Quem não fica pensando “Ah! Como eu queria que fosse assim no Brasil!”, enquanto caminha por cidadezinhas europeias? Impossível resistir.

Tá limpo, chefia.

Mas uma hora você tem que seguir o seu roteiro e sair de lá. E se o seu roteiro mandar você para um país pobre, o trauma da chegada vai ser inevitável.

Tomando como exemplo a viagem deste amigo, o Marrocos é lindíssimo, tem paisagens inesquecíveis, povo simpaticíssimo, querido e alegre e merece ser visitado por todos os viajantes do mundo. Mas é bagunçado, tem trânsito caótico, é sujo e os vendedores são o cúmulo da chatice. Encarar isso depois de um período na Europa pode arruinar as suas férias.

Claro que depois de um ou dois dias você se acostuma e passa a curtir toda aquela zorra. Mas essa curtição acaba chegando mais tarde do que se você tivesse feito o contrário e ido para lá antes da Europa. E quem quer perder um ou dois dias nas férias com medo do que existe da porta do hotel para fora? Ninguém.

Se no alto é assim, imagina no chão

Além do fator “trauma de chegada”, existe o fator “férias são feitas para descansar”, que pode ser ainda mais importante.

Explico também.

Os períodos nestes lugares menos desenvolvidos costumam consumir muito mais as suas energias. Você se cansa mais tentando entender mapas, línguas, cardápios e se estressa com trânsito caótico, buzinas e vendedores chatos.

Por mais que você esteja apaixonado pelo destino, uma hora a sua paciência vai acabar (veja o meu exemplo em Bangcoc) e tudo que você mais vai querer serão alguns dias de descanso em um lugar civilizado.

Aí, você vai agradecer a deus por ter deixado o país rico pro final.

- Gabriel Prehn Britto
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› 31 de agosto de 2009

Hoteis, futebol e marroquinos

Normalmente eu dou sorte nos hoteis que escolho. Com exceção de pouquíssimos lugares onde tive problemas, sempre gostei de todos e em alguns até bati longos papos com os proprietários.

Lembrei disso neste sábado, quando revi algumas fotos das férias de 2006, no Marrocos e na Espanha. No meio de muitas imagens, encontrei esta:

Nada como um futebolzinho e um chazinho de menta

Sou eu assistindo a Real Madrid X Barcelona com os irmãos Ali e Youssef Oubassidi, e alguns empregados do seu hotel, o Ksar Bicha (o nome é estranho, mas não é o que você está pensando), em Merzouga, no Marrocos. A pequena cidade é na verdade um oásis no meio da parte marroquina do Saara e junto da região com as maiores dunas do país.

Neste dia, eu e minha mulher chegamos no hotel, depois de zilhões de horas de carro desde Marrakesh, e fomos recebidos com os sorrisos do pessoal do Ksar. Após o tradicional chá de menta de boas-vindas, fomos para o quarto, tomamos banho e coisa e tal, jantamos e estávamos descansando quando bateram na porta:

- Brasileiros, os Ronaldos estão jogando!

Na época, Ronaldo Nazário jogava no Real Madrid e Ronaldinho jogava no Barcelona. Os marroquinos, fanáticos por futebol, deduziram que os compatriotas não gostariam de perder aquele jogão e foram nos chamar. Apesar de não ser fã do esporte, não pude perder a oportunidade de assistir a uma partida daquelas junto de pessoas tão diferentes e no meio do Saara. Foi inesquecível.

Hoje, Ali Oubassidi é meu contato no Facebook e volta e meia pratico meu francês com ele. Foi ele quem me encontrou na rede, mais de dois anos depois da minha visita ao seu país. Foi a primeira vez que vi um dono de hotel fazer isso.

É, eu dou sorte com os hoteis que escolho.

- Gabriel Prehn Britto
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