Línguas

› 22 de fevereiro de 2010

Desacordo Cultural

Amigos mais próximos sabem que eu sou a melhor pessoa (ou pior, depende do ponto de vista) com quem se aconselhar sobre pretensões de morar um tempo fora do Brasil. Quando alguém me pede opinião sobre este assunto, não importa a idade, o salário nem a situação profissional do possível viajante: minha resposta sempre varia entre “vai”, “demorô”, “te arranca”, “vaza, lôco” e outras expressões similares que signifiquem “compra a passagem logo e some já da minha frente”.

Digo isso porque sei que morar fora é uma das melhores experiências que se pode ter na vida. As lições que se vive no dia-a-dia com estranhos são únicas. E entre tantas que aprendi quando me aventurei em outro país, a melhor de todas foi também a mais óbvia: é fundamental respeitar as culturas de cada povo.

Este foi um aprendizado que uso até hoje em todo lugar que vou e que, salvo algum eventual Alzheimer, não esquecerei nunca mais.

Daí, na semana passada, comecei a ler o livro Desacordo Ortográfico (Não Editora), uma seleção de textos de escritores de língua portuguesa organizados por Reginaldo Pujol Filho.

Ali embaixo tem um link para comprar, ó, pá.

Já na introdução vi que a proposta do Desacordo era genial. Confesso que quase parei ali mesmo, porque eu, tiete en-lou-que-ci-da de José Saramago, concordei imediatamente com cada linha que o Reginaldo escreveu.

Desacordo Ortográfico é uma celebração à beleza que existe nas diferenças entre as várias línguas portuguesas ao redor do mundo. Uma pequeníssima e emocionante amostra de que são justamente as ortografias distintas que nos permitem criar maravilhas literárias, compreendidas por qualquer um capaz de ler este mísero post.

É uma celebração às diferenças culturais, portanto. As mesmas que o Acordo Ortográfico pretende eliminar ao unificar as ortografias.

Imagem retirada do blog http://pauloquerido.pt

Faz pouco mais de um ano que o Acordo foi implementado. Por força profissional, eu já me obrigo a escrever bizarrices como “pára” sem acento, mas os protestos contra as mudanças pipocam por todos os lados.

Se o chororô vai fazer efeito? Não sei. Só sei que os burocratas que assinaram o Acordo deveriam ter experimentado viver um tempo fora dos seus países.

Talvez assim eles tivessem aprendido como é bom respeitar as diferenças culturais.

- Gabriel Prehn Britto
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› 17 de novembro de 2009

Em bom português

Paris, entre setembro e outubro de 1999.

Desci do meu quarto louco para me jogar no petit déjeuner do hotel cujo nome esqueci mas sei que ficava perto da Place d’Italie. Havia poucos hóspedes além de mim e da minha esposa na época. Nos servimos e sentamos sem conversar. De repente, escutamos uma palavra conhecida. Era alguém falando português. Mais do que isso: era um casal brigando em português. Eles não faziam escândalo, mas o tom da conversa elevou o volume naturalmente. Ela era carioca. Ele era gringo, falava nossa língua com sotaque americano.

Não lembro bem o que a mulher dizia além de “acabou, chega, eu vou embora, não aguento mais”. Mas nunca vou esquecer do que o gringo repetia sem parar, com aquele sotaque carregado:

- Voce kagow in min. Voce kagow in min.

“Você cagou em mim.” Obviamente, nós ficamos quietinhos o café da manhã inteiro, segurando as risadas e suando frio para não mostrar que estávamos compreendendo tudo na briga que os dois achavam que estava apenas entre eles.

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Nova York, década de 90 do século 20.

Um amigo brasileiro estava em um restaurante conversando com outro amigo. Em determinado momento, repararam em uma figura estranha sentada na mesa ao lado. Achando que era um gringo, começaram a falar mal da figura em alto e bom som. Foi assim por muito tempo. Uma tiração de sarro sem igual.
A figura se levantou para ir embora. Mas não sem antes passar pela mesa do meu amigo e dizer, em português brasileiríssimo:

- Não vou responder como deveria porque sou mais educado que vocês.

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Onde eu enfio a minha cara, hein? (Foto: Brookezilla - Flickr)

Estas histórias são pequenos exemplos que lembrei depois que um amigo fez um tweet sobre o suposto ferrolho que encontramos na nossa língua no exterior.

Brasileiro parece que nasce em árvore. Estamos em todos os cantos do mundo. Não esqueça disso antes de acreditar que ninguém está entendendo seu português.

- Gabriel Prehn Britto
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