Experiências

› 28 de junho de 2011

Viajar sem ver

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Já pensou se você ficasse cego? Certamente pensou, mas nem quer falar disso. Ficar cego deve ser uma das principais tragédias que podem acontecer com alguém, ainda mais com quem gosta de viajar e ver paisagens diferentes.

Pois foi o que aconteceu com Tony Gilles, um inglês de 32 anos.

Ele nasceu com problemas e foi perdendo a visão ao longo da vida. Com 10 anos de idade, foi estudar em uma instituição para deficientes visuais - e lá aprendeu que poderia ser independente mesmo sem enxergar.

Image: http://www.tonythetraveller.com

Hoje, Tony tem 3 passaportes preenchidos por vistos de 56 países, a maioria visitado de forma independente.

(E você aí com medinho de “não conseguir se comunicar em outra língua”, hein?)

Em novembro de 2010, Tony lançou o livro Seeing The World My Way, onde conta suas aventuras por tantos lugares. O livro ainda não tem versão em português, mas você pode ter uma ideia de como ele deve ser incrível no papo que a Superinteressante teve com o autor (publicado na edição 292 - jun/2011).

seeing_the_world_my_way

Veja uma palhinha:

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Super: Como você faz para conhecer os locais que visita?

Tony: Não consigo enxergar sequer sombras. Isso significa que preciso de todos os outros sentidos para absorver a cidade de acordo com o tipo de superfície, as músicas e vozes, as comidas, os aromas. Tenho um senso único em relação aos outros turistas, porque uso todos os meus sentidos em conjunto, algo raramente feito por quem enxerga.

Image: http://www.tonythetraveller.com

Super: Como esses sentidos ajudam a diferenciar os lugares?

Tony: Pelo ar sei se estou perto da praia, como quando sinto o ar salgado de Seattle ou Bodrum, na Turquia. Ou se a cidade é poluída. De Yerevan, na Armênia, minha lembrança é uma combinação de fumaça de escapamentos, chaminés de fábrica e cigarro. Também aprendo sobre a cultura. Sei que estou em Chicago logo ao sair da estação de ônibus por causa do cheiro da carne e do jazz e do blues que ouço. Já Buenos Aires e Lima me dão a sensação de caminhar por cidades interioranas, em vez de grandes megalópoles, pois consigo ouvir o som de pássaros e cachorros.

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O resto do papo está aqui. Não deixe de ler.

Ah, esqueci de dizer: além de cego, Tony tem problemas sérios de audição (precisa usar aparelho o tempo todo) e já fez um transplante de rim.

E, repito, tem 56 carimbos no passaporte.

- Gabriel Prehn Britto
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› 14 de abril de 2011

Índio quer turista

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Na falta de tempo para escrever, vai aí um post antigo, publicado numa época em que este blog tinha como únicos leitores eu e minha mãe (sim: nem minha mulher me lia. Pois é.)

O post é velho, mas (muito) útil e foi atualizado. Inclusive fiquei me coçando para fazer uma destas viagens.

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Que tal passar férias em uma aldeia indígena? Comer a mesma comida dos locais, dormir em rede e participar do dia-a-dia deles?

Photo: Pedro Biondi (Flickr) - Attribution-NonCommercial 2.0 Generic (CC BY-NC 2.0)

Tenho um amigo sortudo que já fez isso da forma mais real possível, convidado por um índio.

Ele teve a maravilhosa oportunidade de ir duas vezes a uma aldeia no litoral paulista e mais outra no Acre (nesta última, homens brancos só entram com autorização).

Mas se você é como eu, um cara normal sem nenhum cacique entre seus contatos no Facebook, ainda nos resta uma saída. Existem pacotes turísticos para quem quer viver alguns dias em uma tribo.

Photo: Cristina Leme (Flickr) - Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)

Uma das indiadas acontece no litoral da Bahia, em reservas Pataxó. São 5 dias e 4 noites visitando as aldeias Coroa Vermelha, Reserva da Jaqueira, Aldeia Velha, Imbiriba e Barra Velha, com direito a duas noites dormindo em uma oca (as outras duas são em pousadas, afinal nenhum homem branco é de ferro).

Tudo por 799 brasileiríssimos reais (sem passagem aérea, claro).

Photo: Tiago Brandão (Flickr) - Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)

A outra se passa no Mato Grosso, numa cidade chamada Feliz Natal, a 500 km de Cuiabá, na entrada do Parque Indígena do Xingu.

Map: http://www.amazonteam.org

Segundo a matéria de onde tirei as informações, são 4 dias de visitas às aldeias Waurá e Trumai, mas, aparentemente, hospedado em um hotel, sem dormir em oca nem fazer cocô no mato.

De quebra ainda renova a carteirinha da Funai.

- Gabriel Prehn Britto
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› 18 de fevereiro de 2011

Burocracia: é ruim mas pode ser bom

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Vistos são um pé no saco.

Exigem papelada, comprovação de vida inteira e, em alguns casos, até viagens e entrevistas constrangedoras.

Photo: Shockadelic (Flickr)

É tanta apurrinhação que muita gente não se importa de pagar caro pelos serviços de despachantes. Os gastos extras acabam sendo incorporados aos outros gastos da viagem.

Essa é uma maneira de encarar o problema, claro. Mas eu ainda prefiro fazer o contrário: incorporar a incomodação do visto à história da viagem.

Photo: Ars Electronica (Flickr)

Já passei por boas e sei de histórias ótimas de amigos - como um que recebeu seu passaporte com o visto russo apenas na noite anterior à viagem, depois de muito tempo sendo enrolado pelo pessoal da embaixada.

Mas desde que fui para o Vietnã e consegui o meu visto sozinho, ligando para a embaixada vietnamita em Brasília e enviando meu passaporte pelos Correios, economizando mais ou menos uns 300 reais, resolvi que sempre tentaria fazer por mim antes de entregar meu suado dinheirinho para um burocrata.

Planejando a próxima, percebi que eu estava até sentindo saudades disso. Quando vi tudo que vou precisar enviar para a embaixada iraniana em Brasília, confesso, deu uma felicidade. Encarar aquela papelada fazia parte da viagem.

Photo: Don Shall (Flickr)

Não sei como vai ser. Pode acontecer de eu acabar me irritando e pagando o que os despachantes pedem. Mas se todas as roubadas das viagens acabam virando histórias boas para contar depois, por que não encarar a roubada burocrática dos vistos?

- Gabriel Prehn Britto
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› 9 de fevereiro de 2011

Oi, eu sou a História

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

O que você faria se estivesse de férias em um país no exato momento em que começasse uma revolução?

Photo: Nasser Nouri (Flickr)

Todos estes protestos na Tunísia, no Egito e no Iêmen têm me feito pensar sobre o assunto. E a conversa abaixo, no Cairo, transcrita pelo brasileiro Mamede Mustafá Jarouche e publicada na Folha de São Paulo, me atingiu em cheio:

(Mamede, no início dos protestos): “Vou-me embora, estou dando azar (…)”

(Amigo do Mamede): “Se quiser viver um momento histórico de verdade, fundamental para a história do mundo árabe e da região, fique e registre em português. (…)”

(Mamede): “Ok, mas tenho medo de morrer.”

(Amigo do Mamede): “E o que significa a porcaria da tua vida comparada a uma revolução?”

Photo: Ahmad Hammoud (Flickr)

A princípio, eu penso como o amigo do Mamede (digo “a princípio” porque nunca vivi nada parecido e não sei exatamente o tamanho do meu cagaço se vivesse.)

Mas hoje, e desde que eu me conheço por viajante, minha vontade de estar em lugar durante um momento histórico é gigantesca e acho que não perderia esta chance por nada.

Photo: Floris Van Cauwelaert (Flickr)

A gente procura “atrações fora do roteiro turístico” para ver a realidade e conhecer a fundo a cultura de um povo. Pede dicas de lugares onde os turistas não vão. Se emociona com as histórias nos livros lidos antes da viagem. Repete que um viajante precisa de vários dias em um lugar para sentir o seu clima.

Agora me diga: ver uma revolução não é a forma mais profunda, verdadeira e inesquecível para conseguir tudo isso sem ter que morar em um lugar por um tempo?

Photo: darkroom productions (Flickr)

Em que outro momento vemos um povo unido, enfrentando medos e perigos em comum, gritando frases de amor ao seu país e carregando bandeiras?

Photo: Nasser Nouri (Flickr)

Isso é legítimo, é fora do roteiro, é a cultura explícita. É a história acontecendo na sua cara.

Ver uma revolução ao vivo é o ápice do turismo. Mesmo que você não vá além da janela do hotel.

- Gabriel Prehn Britto
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› 19 de novembro de 2010

It’s only travel but I like it

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Se “toda viagem é uma extravagância”, o que dizer de uma viagem com o único propósito de assistir a um show de algum artista ou banda?

Photo: lucadex (Flickr)

Viagens-groupie, como eu carinhosamente chamo esse tipo de aventura, são uma extravagância ao quadrado. Ou uma extraextravagância. Uma bi-extravagância.

Você torra suas economias de maneira não-programada. Queima dias de férias pedindo folga no trabalho. Gasta uma fábula para se jogar por poucos dias em algum lugar que você não estudou direito e talvez nem tivesse muita vontade de conhecer.

Kraftwerk

Porém, ao contrário do que parece, viagem-groupie não é sinônimo de atirar dinheiro pela janela. É uma extravagância dentro da extravagância, sim. Mas se for bem aproveitada, é até uma viagem melhor do que muitas outras.

Photo: madmolecule (Flickr)

Logo no início, as emoções básicas de preparar uma viagem são multiplicadas pela expectativa de ver aquele artista ao vivo: a emissão das passagens é tão comemorada quanto o ingresso garantido; a hora de arrumar a mala vira aquele momento de escolher com que roupa você vai ao show; a procura pelo hotel faz você pensar como vai fazer para chegar no evento; e a pergunta “o que fazer antes e depois?” chama você para uma pesquisa de atrações locais que talvez você nem imaginasse que existissem.

White Stripes

Não para por aí. Se uma viagem é ótima para conhecer novas culturas e hábitos, em uma viagem-groupie você descobre uma característica bem particular e emblemática de um povo: como ele se comporta em shows. É no esquema “todo mundo sentadinho”? O pessoal grita ou apenas aplaude? Todo mundo dança, mas cada um no seu quadrado? Ou é em pé, correria, empurra-empurra e cada um por si?

Photo: hiabba (Flickr)

Seja como for, na volta você sempre vai poder dizer “show em Tal Lugar é assim ou assado”, vai sentir eternamente o orgulho de afirmar “eu vi um show do Fulano em Tal Lugar” (quanto mais longe, mais cool) e ainda vai ter aquele prazer interno de ter visto o seu ídolo.

Chico

Fiz apenas duas viagens-groupie (Kraftwerk, 2004, em São Paulo, e White Stripes, 2005, em Buenos Aires).

Entre os outros artistas e bandas na minha lista de desejos fãzísticos (Paul McCartney, Chico Buarque e Lou Reed) já vi os dois primeiros em Porto Alegre.

Photo: rich007 (Flickr)

Paul

Por um lado, fiquei feliz por ver esses dois sem precisar desembolsar uma grana preta. Por outro fiquei triste: perdi a chance de fazer pelo menos duas viagens.

Ainda bem que ainda me resta o Lou Reed.

Ouvi falar Nova York?

Photo: elfrenetico (Flickr)

- Gabriel Prehn Britto
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› 1 de setembro de 2010

Quando a piada vira história

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Para quem não costuma repetir destinos, as viagens são períodos pontuados por vários momentos únicos, que você aproveita ali, na hora, ou provavelmente não vai aproveitar nunca mais.

Em casos assim, algo que parece ser apenas uma piada bobinha pode se tornar uma boa história (ou pelo menos uma história bobinha e divertidinha) para contar pelo resto da vida.

Em 2006, quando montei o roteiro da viagem Marrocos/Espanha e incluí a Andaluzia, percebi que viveria um momento destes, bobo mas único. Não tive dúvidas: depois de passar a infância vendo o Pica-Pau cantar “Il Barbiere di Siviglia”, eu decidi que faria a barba com um barbeiro de Sevilha.

Aproveitei que os primeiros dias da viagem eram no Marrocos e deixei a barba crescer para me misturar aos árabes. Mas quando cheguei em Sevilha, logo perguntei ao dono do hotel onde eu poderia cortar aquele monte de pelos coçantes.

A primeira indicação foi a rede de lojas El Corte Inglés, que eu não conhecia, mas fui atrás e vi que era um lugar modernete demais.

Modernete

Voltei ao hotel e fui mais claro: eu precisava de um lugar clássico, antigo, de rua, porque eu queria me barbear com um legítimo barbeiro de Sevilha.

O velhinho me olhou com cara de quem achou aquilo meio ridículo, mas eu ignorei. Pegou meu mapa e apontou a rua onde ele se lembrava que havia uma barbearia.

Aqui, ó

No dia seguinte, fui até lá. Apesar do ambiente ser ótimo, o barbeiro não era o gordo bigodudo com quem eu sonhava, não se chamava Fígaro e a plaquinha “english spoken” na vitrine dava um ar cosmopolita demais para o que eu queria. Mas me conformei. Nos anos 2000 não deveria haver muitas barbearias clássicas numa cidade moderna como Sevilha. Era melhor aproveitar o que aquela me oferecia, que já era bastante.

O resultado foi o ensaio sensual abaixo.

Barbearia Melado. O nome não ajuda em nada

Um Fígaro moderninho

Olhar 43

English spoken here

A brincadeira toda me custou 17 euros (mais ou menos uns 60 reais na época) e algumas horas de turismo perdidas na busca pelo endereço.

Foi bem salgado para um corte a zero e uma barba. Mas baratinho para uma boa história para contar.

- Gabriel Prehn Britto
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