Aproveitei essa notícia para escrever sobre um dos filmes que eu considero os mais importantes a serem vistos antes de viagens. Coincidentemente, ele passou domingo na tv (não lembro em qual canal) e eu tive a oportunidade de revê-lo pela primeira vez depois de voltar da jornada ao qual está ligado.
O filme é o impressionante Os Gritos do Silêncio. Ele conta a história real de Dith Pran um cambojano que trabalhou de assistente e intérprete de Sydney Schanberg, correspondente do The New York Times no país pouco antes da chegada do Khmer Vermelho ao poder. Como era cidadão cambojano, Dith Pran não conseguiu fugir junto com os últimos estrangeiros, apesar dos esforços de Schanberg, e foi enviado para os terríveis campos da morte criados por Pol Pot, o líder do Khmer Vermelho e o ditador mais sanguinário da História.
Depois de presenciar assassinatos brutais, fazer trabalhos forçados e viver na absurda miséria imposta pelos ditadores ao povo, Dith Pran, milagrosamente, conseguiu fugir para a Tailândia, onde reencontrou Schanberg (que, vale dizer, nunca parou de buscar informações sobre seu ex-assistente enquanto este estava no Camboja). Após migrar para os Estados Unidos, acabou se tornando um ativista importante pela queda do regime de Pol Pot e pelo desenvolvimento do seu país até a sua morte, em 2008. Aliás, coincidentemente também, Pran faleceu quando eu estava na Ásia. Vi a notícia no Le Monde, chocado, quando desembarquei em Paris, ainda no ônibus entre o Charles de Gaulle e o centro da cidade.
Quando assisti a esse filme, antes de ir para o Camboja, fiquei muito impressionado com a brutalidade do Khmer Vermelho. Isso me fez chegar lá com outra visão daquele povo. Em todos os contatos com pessoas mais velhas, era impossível não pensar que elas também tinham sobrevivido àquilo tudo. Elas também tinham perdido anos das suas vidas em campos de trabalho. Provavelmente também tinham parentes assassinados apenas porque sabiam escrever, calcular ou falar outra língua (o Khmer Vermelho considerava isso uma prova de que a pessoa era um burguês antes da tomada do poder, algo punido com a morte).
Ver este filme depois de entrar em contato com aquelas pessoas foi ainda mais impressionante e, principalmente, triste. Porque é impossível não lembrar que se trata de um povo completamente pacífico, gentil e simples, que cativa qualquer estrangeiro e que sorri o tempo inteiro para as milhares de câmeras fotográficas dos turistas, o que faz com que as atrocidades mostradas pareçam ainda piores. Mesmo assim, Os Gritos do Silêncio é obrigatório para antes e depois de uma viagem ao Camboja.
- Gabriel Prehn Britto