Brasileiros

› 24 de setembro de 2010

A Copa do Mundo é nossa. Mas é melhor devolver.

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Posso falar?

Virei pró-cancelamento da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

Oi?

Não me leve a mal. Não é anti-patriotismo nem secação. Tudo que eu mais quero (além de viajar) é que o Brasil se transforme em um país desenvolvido, cheio de turistas e com passaporte aceito sem restrições no mundo inteiro. Não tenho dúvidas de que uma Copa vai ajudar nesse sentido, portanto sou completamente a favor de sediarmos o evento.

Mas não em 2014.

Explico.

Daqui a um mês, em 30 de outubro, comemoraremos 3 anos desde o grande anúncio da Fifa.

É nóis, mano!

De hoje até junho de 2014 são aproximadamente 3 anos e 9 meses. Considerando que temos eleições, Natal, réveillon, e que o ano só começa depois do Carnaval, restam praticamente 3 anos e 3 meses.

Ou seja: quase nada a mais do que tivemos desde aquele festivo outubro de 2007.

Então eu pergunto: com 50% do prazo extinto, o que você já viu de mudanças concretas na sua cidade até hoje? O que você já viu de obras de infraestrutura realmente relevantes?

Hmmm...

Perdemos 3 anos nomeando “Secretários da Copa” em todos os estados, sambando para impressionar jurados da Fifa e vendo animações em 3D de projetos dos estádios. Mas mão na massa, tijolo e obras, vimos muito pouco ou nada.

Confesso que eu ainda acreditava que as obras seriam realizadas. Teríamos superfaturamentos a esmo, roubalheira desenfreada, claro, mas veríamos 12 cidades melhorando, ganhando padrões primeiro-mundistas. Ao menos, ganharíamos qualidade de vida e projetaríamos uma imagem excelente do Brasil para o mundo, com todas as suas consequências positivas. Finalmente faríamos jus ao nosso potencial turístico, que hoje tem números risíveis.

Huahuahua!

La mano de Diós

Infelizmente, essa crença infantil acabou quando li a notícia de que a reforma de um túnel em Porto Alegre tem previsão de duração de 18 meses.

Sério?

Repito: re-for-ma. Não é a construção de um túnel novo, é reformar um túnel velho.

Dezoito meses é praticamente a metade do tempo que temos daqui até a Copa 2014. E sabe quanto tempo levou entre a realização do orçamento e o início da execução da obra? Dez anos. Sim, a reforma de um túnel precisou de 10 anos para ser iniciada.

Agora me diga: se precisamos de 11 anos e 6 meses para reformar um buraco, precisaremos de quantos para abrir avenidas, criar ciclovias, reformar e ampliar hospitais, construir hotéis, fazer calçadas com acessibilidade universal, organizar transporte coletivo, modernizar aeroportos, duplicar estradas, expandir metrôs et cétera e tal?

Err...

Porto Alegre continua a mesma de 3 anos atrás. Para não ser injusto, alguns semáforos até foram substituídos por novos e já me surpreendi com 2 semáforos de pedestres com sistema para auxiliar deficientes visuais. Mas isso é só perfumaria e exemplos de falta de estrutura na cidade dão em árvores.

A própria candidata Dilma deu a morta em uma entrevista ao Bom Dia Brasil: “Os estados e as prefeituras levam em média 65 meses para concluir o processo de investimento, entre fazer o projeto executivo, fazer o projeto básico, fazer a licença ambiental e contratar a obra.”

Sessenta e cinco meses são mais de 5 anos.

É?

Tudo bem. Para não ser tão pessimista (ou realista) admito que até podemos não fazer feio na frente dos gringos. Mas vai ser tudo na base da maquiagem, que vai durar um mês e escorrer na primeira tempestade. Um teatrinho apenas nas principais áreas das cidades, deixando o caos fora da região da Copa.

É isso que você quer? Roubalheira e superfaturamentos por uma maquiagem temporária?

Pelas barbas do profeta!

Minha proposta é a seguinte: vamos abrir mão da Copa 2014 e nos concentrar nas Olimpíadas do Rio, em 2016.

Depois de um choque inicial pela notícia, o mundo tem grandes chances de admirar a nossa capacidade de assumir nossas fraquezas e a responsabilidade por parar tudo a tempo de uma mudança segura de país-sede. Podemos fazer o mea-culpa no Twitter - está na moda reconhecer erros via web. Assim, o provável calote que daríamos em 2014 terá se transformado em um exemplo de maturidade nacional. Seremos aplaudidos. Clap, clap, clap!

Oh, yeah, babe!

Com foco em reformar apenas uma cidade (o Rio), teremos muito mais forças para dar um show em 2016. Com doses cavalares de otimismo e uma parcela paquidérmica de ingenuidade, é possível acreditar que o choque nacional vai se transformar em mobilização por um evento inesquecível, na cidade mais linda do planeta. Teremos, enfim, uma cidade de primeiro mundo no Brasil.

Aí, então, estaremos prontos para sonhar mais alto, para realmente sediar uma Copa e espalhar as obras por todo o país, com segurança e responsabilidade.

Hihihihi!

Mas precisamos ser rápidos.

O cancelamento da Copa 2014 no Brasil deve ser feito imediatamente. A demonstração de responsabilidade depende disso. Não podemos deixar para a véspera da cerimônia de abertura.

Que, aliás, ainda nem tem cidade definida.

- Gabriel Prehn Britto
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› 17 de novembro de 2009

Em bom português

(Atenção: este blog foi aposentado. No lugar dele, surgiu o Gabriel Quer Viajar. Vá lá. É muito mais bonito e tal.)

Paris, entre setembro e outubro de 1999.

Desci do meu quarto louco para me jogar no petit déjeuner do hotel cujo nome esqueci mas sei que ficava perto da Place d’Italie. Havia poucos hóspedes além de mim e da minha esposa na época. Nos servimos e sentamos sem conversar. De repente, escutamos uma palavra conhecida. Era alguém falando português. Mais do que isso: era um casal brigando em português. Eles não faziam escândalo, mas o tom da conversa elevou o volume naturalmente. Ela era carioca. Ele era gringo, falava nossa língua com sotaque americano.

Não lembro bem o que a mulher dizia além de “acabou, chega, eu vou embora, não aguento mais”. Mas nunca vou esquecer do que o gringo repetia sem parar, com aquele sotaque carregado:

- Voce kagow in min. Voce kagow in min.

“Você cagou em mim.” Obviamente, nós ficamos quietinhos o café da manhã inteiro, segurando as risadas e suando frio para não mostrar que estávamos compreendendo tudo na briga que os dois achavam que estava apenas entre eles.

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Nova York, década de 90 do século 20.

Um amigo brasileiro estava em um restaurante conversando com outro amigo. Em determinado momento, repararam em uma figura estranha sentada na mesa ao lado. Achando que era um gringo, começaram a falar mal da figura em alto e bom som. Foi assim por muito tempo. Uma tiração de sarro sem igual.
A figura se levantou para ir embora. Mas não sem antes passar pela mesa do meu amigo e dizer, em português brasileiríssimo:

- Não vou responder como deveria porque sou mais educado que vocês.

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Onde eu enfio a minha cara, hein? (Foto: Brookezilla - Flickr)

Estas histórias são pequenos exemplos que lembrei depois que um amigo fez um tweet sobre o suposto ferrolho que encontramos na nossa língua no exterior.

Brasileiro parece que nasce em árvore. Estamos em todos os cantos do mundo. Não esqueça disso antes de acreditar que ninguém está entendendo seu português.

- Gabriel Prehn Britto
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