› 9 de fevereiro de 2011

Cultura

Oi, eu sou a História

O que você faria se estivesse de férias em um país no exato momento em que começasse uma revolução?

Photo: Nasser Nouri (Flickr)

Todos estes protestos na Tunísia, no Egito e no Iêmen têm me feito pensar sobre o assunto. E a conversa abaixo, no Cairo, transcrita pelo brasileiro Mamede Mustafá Jarouche e publicada na Folha de São Paulo, me atingiu em cheio:

(Mamede, no início dos protestos): “Vou-me embora, estou dando azar (…)”

(Amigo do Mamede): “Se quiser viver um momento histórico de verdade, fundamental para a história do mundo árabe e da região, fique e registre em português. (…)”

(Mamede): “Ok, mas tenho medo de morrer.”

(Amigo do Mamede): “E o que significa a porcaria da tua vida comparada a uma revolução?”

Photo: Ahmad Hammoud (Flickr)

A princípio, eu penso como o amigo do Mamede (digo “a princípio” porque nunca vivi nada parecido e não sei exatamente o tamanho do meu cagaço se vivesse.)

Mas hoje, e desde que eu me conheço por viajante, minha vontade de estar em lugar durante um momento histórico é gigantesca e acho que não perderia esta chance por nada.

Photo: Floris Van Cauwelaert (Flickr)

A gente procura “atrações fora do roteiro turístico” para ver a realidade e conhecer a fundo a cultura de um povo. Pede dicas de lugares onde os turistas não vão. Se emociona com as histórias nos livros lidos antes da viagem. Repete que um viajante precisa de vários dias em um lugar para sentir o seu clima.

Agora me diga: ver uma revolução não é a forma mais profunda, verdadeira e inesquecível para conseguir tudo isso sem ter que morar em um lugar por um tempo?

Photo: darkroom productions (Flickr)

Em que outro momento vemos um povo unido, enfrentando medos e perigos em comum, gritando frases de amor ao seu país e carregando bandeiras?

Photo: Nasser Nouri (Flickr)

Isso é legítimo, é fora do roteiro, é a cultura explícita. É a história acontecendo na sua cara.

Ver uma revolução ao vivo é o ápice do turismo. Mesmo que você não vá além da janela do hotel.

- Gabriel Prehn Britto

Comentários

  1. Paula 9.2.2011, 14:17

    Olá!

    estava viajando por aí e acabei aqui, no seu blog.

    Achei muito legal, adorei o conteúdo.

    Voltarei mais vezes.

    http://apequenaviajante.blogspot.com/

  2. Helo 9.2.2011, 15:01

    Sem dúvida a experiencia é única, mas eu não gostaria de vivenciar por medo. Mais se estivesse nesta situação, tentaria registrar com os olhos e ouvidos os sentimentos e a situação.

  3. Janira Borja 10.2.2011, 13:25

    No couchsurfing, um membro pediu indicações sobre como poderia ajudar um amigo que estava lá no egito e não conseguia sair. O pessoal passou o telefone de emergência que o Consulado brasileiro disponibilizou, mas claro que, numa comunidade de viajantes, todo mundo falou “menina, manda ele aproveitar!”, naquela vibe bem “ele está vivendo um momento histórico!”. Confesso que pensei o mesmo e ACHO que ia gostar de viver uma coisa dessas. Mas a resposta da menina me fez refletir um bocado: ela falou da dificuldade de locomoção, do desabastecimento (oi? fazer história com fome?), da dificuldade de comunicação e de usar a rede bancária, dos saques e roubos - coisas que a gente não vê muito pela TV e que os locais devem lidar com um pouco mais facilidade, né, porque conhecem bem a cidade, por ter amigos e família…
    Mas, enfim, no fundo, no fundo, ACHO que ia amar passar por essa experiência! Pensando daqui, do conforto do lar, acho que não teria medo - ou, pelo menos, não o suficiente para querer fugir. Pegava minha máquina e zaz!