Desde que resolvi botar banca de amante da fotografia (não vou dizer “fotógrafo”, porque isso eu não me considero) e comecei a me informar sobre câmeras, é comum que amigos venham me pedir opinião sobre que equipamento comprar. Atendo a todos com o maior prazer, mas a coisa tem aumentado tanto que chegou ao ponto de, no mês passado, eu receber um SMS perguntando “Que câmera eu compro?”, enviado por uma amiga que estava de férias na Europa. Então, para facilitar a minha vida e a sua, resolvi fazer um post tratando do assunto. Não é o mais completo do mundo e nem vai ser definitivo na sua vida, mas deve ajudar. E se não ajudar, pelo menos foi de graça, não reclame.
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PEQUENO MANUAL PARA ESCOLHER A CÂMERA DA SUA VIAGEM
CAPÍTULO 1: Auto conhecendo-se a si mesmo

Antes de sair procurando enlouquecidamente por preços e modelos, olhe para o espelho e pergunte: que tipo de fotógrafo você é? Saber bem o que você gosta e espera das suas fotos de viagem é fundamental para fazer uma boa compra, sem desperdiçar o seu dinheiro. Coloquei aqui as categorias de fotógrafos que identifico. Veja se você se encaixa em alguma delas.
BOA VIDA. Você só quer saber de registrar a viagem para mostrar aos amigos depois. Você não se importa com detalhes, não se preocupa em procurar algo diferente na cena e tudo que você quer é praticidade. Seu negócio é ligar, mirar e registrar o momento, mais nada. Por isso, sua câmera está sempre no modo automático e, na verdade, você nem sabia que existiam câmeras com modos manuais.
PRÉ-ENTUSIASTA. Em parte, você é como o Boa Vida. Também quer praticidade e rapidez com a câmera e não quer se meter a fotografar em algum modo que não seja automático. Porém, você se preocupa um pouco mais com a foto, às vezes quer pegar algum detalhe da cena, avalia o enquadramento, às vezes se arrisca a fazer fotos de ângulos diferentes do que todo mundo faria e já ficou puto com algumas limitações do seu equipamento para, por exemplo, fazer fotos em um ambiente escuro sem flash.
ENTUSIASTA. Você já não aguenta as limitações das câmeras automáticas nem suas funções pré-determinadas. Você faz questão de buscar detalhes, de fazer um enquadramento legal, de conseguir um efeito diferente do que o normal. Às vezes você se arrisca a fazer fotos em modo totalmente manual, mas acha que deve ser um saco carregar uma câmera e um monte de lentes pra cima e pra baixo em uma viagem.
METIDO. Você é igualzinho a mim. Você quer fazer sempre uma foto que tenha um enquadramento bem pensado, iluminação adequada e um objeto interessante. Você até se preocupa com o peso da câmera, mas sabe que ele é o ônus de ter um bom equipamento.
PRÉ-PROFISSIONAL ou PROFISSIONAL. Você não precisa de ajuda para comprar sua câmera. Esse post não é para você. Obrigado pela atenção. Abraço.
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CAPÍTULO 2: Conhecendo sua parceira

Depois de descobrir que tipo de fotógrafo você é, chegou a hora de conhecer os tipos de câmeras disponíveis por aí. Para uma lista relativamente confiável, me baseei nas categorias apresentadas no site da BH, uma loja americana.

“Point & Shoot”. São aquelas câmeras de uso simplificado. Pequenas, fininhas, leves e extremamente portáteis, normalmente elas oferecem apenas o modo totalmente automático e alguns modos diferenciados mas previamente estabelecidos (fotografia noturna, paisagem, retrato, etc.). O zoom poucas vezes passa de 3X.

“Prosumer”. São as câmeras que se parecem com aquelas grandonas que você admira quando vê nas viagens. Normalmente elas oferecem uma lente zoom potentíssima (com mais de 12X), vários modos de funcionamento (do totalmente automático ao totalmente manual) e filmam. Não são leves e mega-portáteis, mas não são pesadas como as SLR a seguir.

“SLR”. Essas, sim, são aquelas grandonas que fazem você pensar que o seu dono é um puta fotógrafo. Não são nada práticas nem leves, o que pode ser um tormento em viagens. Custam caro e vêm sem nenhuma lente, o que requer investimento nisso também. Em compensação, oferecem muito mais recursos do que as anteriores e, se você souber usá-las e usar os softwares de edição direitinho, permitem que você faça fotos muito mais bonitas do que qualquer outra.
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CAPÍTULO 3: Muito prazer: eu sou sua câmera.

Chegou a hora de fazer o cruzamento dos tipos de fotógrafos com os tipos de câmeras. Lembre-se: isso não é um estudo científico, é apenas uma análise amadora de quem já foi todos estes tipos de fotógrafos e conhece mais ou menos os desejos e necessidades de cada.
BOA VIDA. Sem sombra de dúvidas, sua câmera é uma Point & Shoot. Nem perca tempo olhando para as outras, porque você não vai curtir nada delas. Talvez você até curta o zoom avantajado das Prosumers, mas o tamanho e o peso vão fazer você encher o saco rapidinho, logo que perceber que elas não cabem no seu bolso. No máximo, tente procurar um modelo com zoom um pouco mais potente.
PRÉ-ENTUSIASTA. Por mais que você admire as Prosumers e até mesmo as SLR, sua câmera ideal tem tudo para ser uma Point & Shoot também. Os motivos para isso são os mesmos que me fazem recomendar o tipo para os Boa Vidas: a pouca praticidade e o peso vão acabar incomodando você mais cedo ou mais tarde. Hoje em dia existem modelos Point & Shoot bem avançados, com funções pré-determinadas que vão satisfazer as suas exigências.
ENTUSIASTA. Apesar de, lá no fundo, ainda gostar da praticidade física das Point & Shoot, você já não se sente totalmente realizado com elas. Sua câmera ideal é uma Prosumer, onde você pode brincar com modos manuais e semi-manuais sem gastar uma bolada numa SLR, nem precisar trocar de lente a todo instante. De quebra, você ainda bota banca de fotógrafo perante seus amigos Boa Vidas.
METIDO. Point & Shoot? Não, muito simples. Prosumer? Bem, até são boas e práticas. Mas o que você quer mesmo é uma câmera com bastante recursos, que fotografe em RAW e tenha lentes confiáveis. Você já está acostumado com a falta de praticidade das Prosumers e não vai se importar em aumentá-la um pouco se isso significar imagens mais legais e com mais opções de edição. Sua câmera é uma SLR.
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CAPÍTULO 4: Com que marca eu vou?

Aqui está uma dúvida que atormenta os viajantes: qual é a melhor marca? A resposta é simples: nenhuma.
Todas as marcas têm prós e contras e você sempre vai ouvir alguém falando mal ou bem cada uma delas. Por isso é difícil indicar A ou B. Mesmo assim vou tentar ajudar colocando a minha percepção das principais marcas de acordo com tipos de câmeras apresentados nesse guia.
“Point & Shoot”. Nesta categoria dá para ir quase sem medo em qualquer das fabricantes mais famosas, com exceção da Canon (lá embaixo eu explico porquê). Sony leva vantagem por ser uma marca muito admirada no Brasil e, por isso, muito fácil de revender depois. Porém, perde pontos porque exige cartões de memória exclusivos, que vão pro lixo quando você resolve trocar de fornecedor.
“Prosumer”. A partir daqui, eu já reduzo bastante a quantidade de marcas indicadas. Fico sempre em Nikon, Sony, Fujifilm e Olympus, com prioridade para Nikon e Sony. Neste nicho, a Sony continua sendo uma marca de fácil revenda, mas a Nikon já fica mais próxima. Canon, de novo, não recomendo.
“SLR”. Importante: não faça a besteira de pedir a opinião de mais de um fotógrafo profissional sobre qual marca de SLR comprar. Conversar sobre fabricantes com eles é como conversar sobre futebol, religião e política: cada um vai defender o seu ponto de vista até a morte e sempre vai atacar quem não for o seu preferido.
Neste grupo, eu fico sempre entre Nikon e Canon, apesar de muita gente dizer que Sony também é boa.
Por que não a Canon em Point & Shoot e Prosumer?
Minha primeira câmera digital foi uma Canon A70, uma Point & Shoot. Eu estava no meio de uma viagem quando ela simplesmente apagou, recolheu a lente, acionou um pequeno sinal sonoro e mostrou no visor: “Error E18”. Eu estava no meio de uma viagem e, óbvio, me apavorei com aquilo. Mais adiante ela voltou a funcionar, mas seguiu apresentando problema com frequência e nunca mais foi a mesma.
Anos mais tarde, comprei uma Canon S5, uma bela Prosumer. Tudo corria bem, até que um dia ela agiu da mesma forma que sua irmã A70 e apresentou o tal erro E18, me impedindo de fotografar. Logo em seguida ela voltou ao normal e nunca mais apresentou nada, mas aquilo me deixou intrigado. Foi quando procurei o tal erro no Google e descobri que ele tem um site dedicado e até virou verbete no Wikipedia, de tanto que inferniza a vida dos consumidores da marca. Foi o que eu precisava para nunca mais recomendar Canon que tenha lentes automáticas.
Claro que tem gente que nunca viveu esse problema (meu irmão, por exemplo, só usa Canon e nunca viu o E18). Mas eu vivi e, por isso, não recomendo as Point & Shoot nem as Prosumer da Canon para ninguém.
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CAPÍTULO 5: Fico bem com esse modelo?

Desculpe, mas não vou ajudar você tanto assim a ponto de dizer até o modelo que você tem que comprar. Primeiro porque isso me daria uma trabalheira da morte. Segundo porque eu não quero ser responsabilizado por nenhuma compra mal feita.
O que vou fazer é dizer como e onde você pode pesquisar até escolher a câmera que considera a melhor para a sua viagem.
1º passo: vá no site da BH e na Amazon. Chegando lá, comece a sua pesquisa da forma que desejar, por marca, quantidade de pixels, potência de zoom ou qualquer coisa. Só não esqueça de ler os comentários dos consumidores, que é o grande indicativo de uma boa compra. Quanto mais estrelinhas dadas por mais consumidores, óbvio, melhor é o produto. No final, faça a sua lista de câmeras desejadas e parta para o segundo passo.
2º passo: procure reviews de profissionais. Onde? Eu gosto muito do Digital Photography Review, mas existem outros também. Dia desses descobri o What Digital Camera, que apresenta as análises em vídeo. Procure os modelos que você escolheu no 1º passo e veja o que os experts no assunto têm para dizer sobre eles.
3º passo: faça sua pesquisa de preços, compre e aproveite.
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UPDATE
CAPÍTULO 6: E o que mais?

Atendendo a milhares de pedidos (ah, tá, acredito), vou colocar aqui algumas dicas extras para os viajantes.
Baterias. Sempre, absolutamente sempre tenha duas baterias. Se sua câmera usa pilhas, tenha um jogo extra e use modelos recarregáveis. Não esqueça de levar o carregador na viagem, para manter a bateria extra pronta para uso. Não há nada pior do que ver o sinal de energia fraca enquanto você ainda tem o dia inteiro de fotos pela frente e nenhuma bateria carregada no bolso.
Sobre a escolha entre pilhas ou bateria, existem prós e contras. Baterias geralmente são mais leves e duram mais. Mas pilhas podem ser encontradas em qualquer lugar, em caso de problemas com as suas. Se você estiver no meio do nada, uma câmera que usa pilhas pode garantir suas fotos.
Cartão. Ao invés de ter um único cartão com uma dezena de giga, prefira ter uma quantidade maior de cartões com capacidade de armazenamento menor. Assim, você reduz as chances de perder tudo caso aquele seu único cartão grandão dê problema. Não é a opção mais barata, mas é a mais segura.
Bolsa. Não economize na hora de comprar uma boa bolsa para a sua câmera. Procure modelos onde você possa colocar um ou dois cartões extras, além das baterias sobressalentes. Particularmente, gosto muito das bolsas da Lowepro, mas existem outras boas por aí.
RAW. Muita gente não sabe o que é isso, mas é normal. Em linhas gerais, RAW é um formato de arquivo, assim como o jpeg. A diferença é que o RAW não compacta a imagem tanto quando o jpeg. O lado bom é que ele permite que você mexa muito mais na imagem no computador, e é por isso que ele é mais usado em câmeras SLR. O lado ruim é que cada foto fica muito mais pesada e, consequentemente, ocupa mais espaço na memória, exigindo cartões maiores.
Megapixels. Não fique tão bitolado com a quantidade de megapixels da sua câmera. Se você não pretende imprimir painéis enormes e tudo que você quer são fotos em tamanhos normais, não precisa de mais de 3 MP. O que vier acima disso é lucro. Eu, por exemplo tenho uma Nikon D70s com “míseros” 6 MP.