República Tcheca
Na shledanou, Praho*

Certa vez, Kafka disse:
“Praga não vai deixar você ir. A mãezinha tem garras.”
E Kafka estava certo. Na primeira vez que estive lá, em 1999, caí nas garras de Praga e voltei para o Brasil determinado a viver nela pelo tempo que conseguisse. Retornei no ano seguinte e aguentei 9 meses. Fui embora expulso pelo inverno que parecia não acabar nunca e que já me botava em depressão. Descobri que as garras da mãezinha seguram, mas também machucam.
Por causa disso, por 8 anos vivi uma relação de amor e ódio com a capital tcheca. Ao mesmo tempo em que me arrepiava de pavor quando lembrava do sol se pondo às 4 da tarde, da minha sombra projetada lá longe em pleno meio-dia e das árvores sem folhas, morria de saudades de caminhar por suas ruas e nunca deixei de acompanhar as notícias sobre o país no Prague Post e na Radio Praha. Vi a eleição do atual presidente, tive medo na terrível enchente do Vltava e vi a entrada na União Européia. Quando conheci o Google Earth, adivinha qual foi o primeiro lugar que procurei?
Então, quatro anos depois da minha vinda, a minha melhor amiga foi morar lá. Não feliz por me conquistar e depois me mandar embora, Praga resolveu ficar ainda mais presente na minha vida. Notícias eram mais frequentes. Latas de cerveja chegavam na minha casa de tempos em tempos e me teletransportavam só com o cheiro. Até o queijo frito atravessou o Atlântico para me atiçar. Praga mostrou sua determinação em me manter preso à ela.
Quando finalmente me rendi e decidi encará-la novamente, desdenhei: disse que parecia que eu tinha deixado a cidade havia apenas uma semana, não 8 anos.
Puro orgulho meu. Não queria admitir que, depois de conhecer tantas outras em viagens durante o período em que nos afastamos, ela parecia ainda mais bela com suas cores e sua mistura arquitetônica sem igual. Tentava mostrar que agora eu era independente e que ela não me impressionava mais. Mas ao longo destes 24 dias, não consegui manter a farsa nem para mim mesmo e a cada cerveja, a cada rua, passeio, foto, fui me rendendo até desabar.
A língua que ela fala é feia demais, irrita os ouvidos, é dificílima de aprender, mas eu adoro dizer “strč prst skrs krk” e o desafio de me comunicar com cada tcheco que não fala inglês.
Ela é burocrática, preguiçosa e confusa, mas é exatamente isso que faz com que não seja chata e corretinha.
Ela não sabe cozinhar, me alimenta mal pra caramba, mas me dá a melhor cerveja do planeta.
Ela é gelada e escura na maior parte do ano. Mas é absurdamente linda e charmosa como nenhuma outra que conheci até hoje.
Não dá para negar: Praga é a melhor cidade do mundo para mim.
*Na shledanou = “até logo”, em tcheco.













